sexta-feira, 13 de maio de 2011

Estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já.

Meu tema é o instante? Meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes, em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos – só me comprometo com a vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim.

Domingo é o dia dos ecos – quentes, secos, e em toda a parte zumbidos de abelhas e vespas, gritos de pássaros e o longínquo das marteladas compassadas – de onde vêm os ecos de domingo? Eu que detesto domingo por ser oco.

Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana. É nossa. Eu me entrego em palavras e me entrego quando pinto.


Quero apossar-me do é da coisa.

Quero possuir os átomos do tempo.

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.

Mas bem sei o que quero aqui: quero o inconcluso. Quero a profunda desordem que no entanto dá a pressentir uma ordem subjacente.

Um dia eu disse infantilmente: eu posso tudo. Era a antevisão de poder um dia me largar e cair num abandono de qualquer lei. Elástica.









Só no ato do amor – pela límpida abstração de estrela do que se sente – capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si.

No amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio de instantes.

Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.

O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor acabou. Mas às vezes em seu lugar vem o belo ódio dos que se amaram e se entredevoraram.

Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo











Eternidade: pois tudo o que é nunca começou. Minha pequena cabeça tão limitada estala ao pensar em alguma coisa que não começa e não termina.

Sei que Deus é o mundo. É o que existe. Eu rezo para o que existe?

Não é perigoso aproximar-se do que existe. A prece profunda é uma meditação sobre o nada. É o contacto seco e elétrico consigo, um consigo impessoal.











Estou atrás do que fica atrás do pensamento



Atrás do pensamento não há palavras. É-se.



O verdadeiro pensamento parece sem autor

Assim o mais profundo pensamento é um coração batendo.













Não é um recado de idéias que te transmito e sim uma instintiva volúpia daquilo que está escondido na natureza e que adivinho. E esta é uma festa de palavras. Escrevo em signos que são mais um gesto que voz.















2. O que te escrevo continua e estou enfeitiçada.

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